Há uma leitura confortável dos números de adoção de IA no mercado jurídico: se quase todo mundo já usa, o problema está resolvido e sobrou apenas refinamento.
Os dados dizem o contrário. Eles mostram duas curvas que se separaram — uma de uso, que disparou, e outra de competência, que quase não se moveu. É no vão entre as duas que o risco mora, e é lá que o dinheiro se perde.
A curva que disparou
dos profissionais jurídicos já usam ferramentas de IA de uso geral no trabalho. Eram 31% um ano antes — mais que o dobro. O uso de IA jurídica específica também dobrou: de 21% para 42%.
8am · 2026 Legal Industry Report · março de 2026 · mais de 1.300 respostas · profissionais primariamente da América do Norte
E não é uso ocasional: quase 60% recorrem à ferramenta ao menos várias vezes por semana, 94% relatam algum benefício mensurável e quase um em cada quatro diz economizar seis horas ou mais por semana.
A curva que não se moveu
A Section AI aplicou testes práticos — não autodeclaração — em 5.026 profissionais do conhecimento nos Estados Unidos, e classificou o resultado em níveis de proficiência.
da força de trabalho atinge o patamar de proficiência em IA. Os outros 94,4% permanecem nos níveis iniciais — experimentando ou apenas tateando.
Section AI · The AI Proficiency Report · junho de 2026 · 5.026 profissionais do conhecimento, EUA
O detalhe mais revelador do relatório não é esse número, e sim o que aparece quando se sai da pergunta e se vai ao teste. O caso de uso mais comum — relatado por 61% dos trabalhadores — é, nas palavras do relatório, essencialmente "procurar coisas": o andar mais raso da ferramenta, aquele em que ela substitui uma busca.
E quando os pesquisadores pediram que escrevessem instruções funcionais para um assistente, num teste prático, apenas 3,8% conseguiram.
É a distância entre ter a ferramenta aberta na tela e saber o que fazer com ela. Nenhuma licença fecha esse vão — e é exatamente esse vão que produz a peça com precedente inventado, o contrato revisado por cima, o parecer que parece pronto e não está.
O elo que ninguém está olhando: o gestor
O achado mais acionável do relatório da Section AI não é sobre indivíduos. É sobre quem os dirige — e o título dele é direto: a transformação por IA está morrendo nas mãos dos gestores.
Os números que sustentam a afirmação:
- Quem tem gestor que exige o uso de IA pontua 1,5 vez mais em proficiência.
- E tem 2,7 vezes mais chance de estar entusiasmado com a tecnologia — não resignado: entusiasmado.
- Mas apenas 7% dos gestores vinculam o uso de IA à avaliação de desempenho.
- E 37,5% não fizeram absolutamente nada a respeito no último mês.
Some a isso o dado organizacional: empresas com estratégia formal de IA pontuam 43 na escala de maturidade, contra 26 das que não têm. Não é diferença de talento individual. É diferença de direção.
Traduzido para um escritório: adiantam pouco os dois ou três advogados que descobriram sozinhos como usar bem a ferramenta, se a casa não decidiu nada. O ganho fica preso na pessoa e vai embora com ela.
A governança que não existe
Se a competência não acompanhou o uso, a regra acompanhou menos ainda:
dos escritórios não têm política de IA e não pretendem criar. Apenas 9% têm uma política escrita e efetivamente fiscalizada; 24% estão desenvolvendo.
8am · 2026 Legal Industry Report · março de 2026
Leia esses três números juntos: 69% usam, 9% fiscalizam. Sessenta pontos percentuais de distância entre o que acontece e o que está sob controle. É esse o espaço em que o uso não supervisionado vive — e, no Brasil, é dele que saíram as decisões judiciais que já condenaram clientes por peças com jurisprudência inventada.
Quem está dizendo que a saída é treinamento
A parte que costuma surpreender: a prescrição não vem de quem vende capacitação. Vem das consultorias globais que medem o setor.
Sophie Ross, CEO global da FTI Technology, ao comentar o salto de adoção nos departamentos jurídicos:
Não é a IPLIA dizendo que é preciso treinar. É a FTI Consulting, para uma amostra de 224 general counsels de grandes organizações, incluindo a América do Sul.
E, no Brasil, não é só recomendação — é dever posto desde novembro de 2024. A Recomendação nº 001/2024 do Conselho Federal da OAB determina, no item 3.6, que sócios e gestores garantam a supervisão do uso de IA por associados, estagiários e assistentes, com três deveres expressos: políticas claras, treinamento adequado sobre uso ético e seguro e monitoramento do cumprimento.
A norma tem quase dois anos de vigência. Um tribunal brasileiro já a usou como fundamento de condenação.
O que fecha o vão
O erro comum é tratar isso como problema de ferramenta — e resolver comprando outra. Os números mostram que o gargalo está três camadas antes: as pessoas não sabem onde aplicar, não sabem como pedir, e a casa não decidiu o que é obrigatório.
Fechar esse vão exige três coisas, nesta ordem:
- Saber onde a casa está. Não por autodeclaração — quem se avalia, se superestima; foi isso que o teste prático mostrou. Medir com caso real.
- Treinar com o trabalho de verdade. Curso genérico produz quem sabe explicar o que é um modelo de linguagem e continua usando a ferramenta como buscador. O que muda o patamar é praticar com a peça, o contrato e o processo da própria mesa.
- Escrever a regra e cobrá-la. Sem isso, o ganho fica na pessoa e some quando ela sai — e a exposição continua inteira, porque uso sem supervisão não vira política por osmose.
A adoção já aconteceu, e não vai voltar atrás. A pergunta que sobrou para o sócio é se a casa dele vai operar no patamar dos 5,5% ou no dos 94,4% — sabendo que, no segundo grupo, o risco já não é hipotético.
Leia também
- Quem paga pela alucinação da IA não é o advogadoo que acontece quando o vão não é fechado
- O cliente já reescreveu o contratoe não paga a sua curva de aprendizado
Fontes
- 8am · 2026 Legal Industry Report · 05/03/2026 · mais de 1.300 respostas, campo entre setembro e outubro de 2025, respondentes primariamente da América do Norte. 8am.com
- Section AI · The AI Proficiency Report · junho de 2026 · 5.026 profissionais do conhecimento dos Estados Unidos. sectionai.com
- FTI Consulting & Relativity · The General Counsel Report · 11/03/2026 · 224 general counsels e chief legal officers. fticonsulting.com
- Conselho Federal da OAB · Recomendação nº 001/2024, aprovada por unanimidade em 11/11/2024. Íntegra em PDF
As amostras da 8am e da Section AI são internacionais — norte-americanas em sua maior parte. Não são pesquisas brasileiras e não devem ser lidas como retrato do Brasil. O que é brasileiro, aqui, é a norma da OAB e a jurisprudência.
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