Você usa IA. Mas em qual nível?

Três anos depois do lançamento do ChatGPT, a maioria dos profissionais ainda opera nos estágios iniciais de uso da inteligência artificial. Não é uma crítica — é o que os dados mostram.

O problema não é mais falta de ferramenta. As versões atuais dos principais modelos são capazes de gerar valor real — e a diferença entre elas e as versões de três anos atrás é substancial. O que ainda não evoluiu no mesmo ritmo foi a forma como a maioria das pessoas as usa. O gap hoje é gerado por falta de diagnóstico, não de acesso.

Para o profissional do Direito, que depende da qualidade do raciocínio escrito como entregável central do seu trabalho, essa curva tem implicações que vão além da produtividade.

5,5%

da força de trabalho atinge hoje o patamar de proficiência em IA — os outros 94,4% estão distribuídos entre iniciantes e experimentadores. Fonte: Section AI, The AI Proficiency Report, junho de 2026, com 5.026 profissionais do conhecimento nos Estados Unidos.

Para o mercado jurídico e corporativo brasileiro, onde a adoção de IA ainda está em estágios iniciais, esse número provavelmente é ainda mais conservador.

O problema central não é aprender a usar IA. É saber onde você está — e o que distingue cada estágio do próximo.

A escala de proficiência: cinco níveis, dois eixos

A Larridin, consultoria especializada em adoção de IA em grandes organizações, descreve um espectro de cinco níveis de proficiência. O critério de classificação não é o tempo de uso nem o número de ferramentas. É uma combinação de dois eixos: o que o profissional consegue produzir com IA (qualidade e complexidade do output) e como a IA está integrada ao seu fluxo de trabalho real.

Os dois eixos precisam avançar juntos. Profissionais que desenvolvem apenas um deles atingem um teto cedo.

Nível 1 — onde quase todo mundo começa
O substituto de busca (Search Replacer)

A IA substitui o Google. O profissional faz perguntas simples e obtém respostas simples. O ganho de produtividade existe, mas é marginal. A interação é linear: uma pergunta, uma resposta, sem refinamento.

A Section AI chama esse grupo de "AI novices".

No contexto jurídico: perguntar ao ChatGPT o que é um acordo de acionistas. Copiar a resposta sem verificar fontes ou adaptar ao caso concreto.

Nível 2 — onde a maioria estaciona
O automatizador de tarefas (Task Automator)

O profissional começa a usar IA para tarefas específicas e delimitadas: resumir documentos, reescrever e-mails, rascunhar textos, traduzir com revisão. A Section AI denomina esse grupo de "AI experimenters" — e é aqui que está concentrada a maioria.

O marcador típico deste nível é a inconsistência: o profissional não sabe exatamente por que o resultado funcionou e não consegue replicar com regularidade. Cada uso recomeça do zero.

No contexto jurídico: pedir à IA para resumir um contrato de 40 páginas ou rascunhar uma notificação extrajudicial. O resultado é útil, mas exige revisão extensiva — e o profissional não tem parâmetros claros para avaliá-lo.

Nível 3 — O salto mais subestimado
O trabalhador aumentado (Augmented Worker)

Este é o nível onde a relação com a ferramenta muda de caráter. O profissional percebe que a qualidade do output depende diretamente da qualidade da instrução. Ele desenvolve padrões de instrução, salva prompts que funcionam, refina iterativamente. A IA passa a amplificar capacidades existentes — não apenas responder perguntas.

No contexto jurídico: estruturar um memorando de due diligence com contexto detalhado, analisar cláusulas específicas de um contrato com parâmetros definidos, ou comparar legislações com critérios explícitos. O profissional revisa com autoridade, não com desconfiança genérica.

Nível 4 — a virada de patamar
O usuário avançado (Power User)

O profissional passa a usar sequências encadeadas e instruções com parâmetros acumulados. A distância de produtividade entre o power user e o usuário típico da mesma organização — com acesso exatamente às mesmas ferramentas — deixa de ser incremental e passa a ser de outra ordem.

No contexto jurídico: o profissional não "decide usar IA" para cada tarefa — trabalha, e a IA é parte do processo. O output final tem sua voz e seu padrão, não o padrão genérico da ferramenta.

Nível 5 — a fronteira agêntica
O orquestrador nativo (AI-Native Orchestrator)

Este é o nível que a Larridin identifica como a fronteira de 2025-2026: o uso agêntico. O profissional delega tarefas completas para agentes autônomos com fluxos encadeados. Usa múltiplos modelos para diferentes funções — raciocínio, geração, revisão. A IA influencia decisões sobre estrutura de trabalho e alocação de tempo.

A Section AI chama este grupo de "AI experts". O profissional não está fazendo seu trabalho anterior mais rápido — está fazendo coisas que antes não tentaria.

O ponto de travamento mais comum

A pesquisa da Section AI mede o travamento por dois ângulos, e os dois apontam para o mesmo lugar. O caso de uso mais comum — relatado por 61% dos trabalhadores — é, nas palavras do relatório, essencialmente "procurar coisas": o andar mais raso da ferramenta. E quando os pesquisadores saíram da autodeclaração e foram para o teste prático, apenas 3,8% conseguiram escrever instruções funcionais para um assistente.

A distância entre esses dois números é o diagnóstico: não é que as pessoas não usem IA — é que usam no nível de uma busca, e não sabem pedir mais. Fonte: Section AI · The AI Proficiency Report · jun/2026 · 5.026 profissionais do conhecimento, EUA

O problema não é técnico. Profissionais que sabem usar IA razoavelmente bem travam porque não sabem onde aplicá-la com impacto. O gap está entre saber que a ferramenta existe e saber para qual problema usá-la.

Para o mercado jurídico, isso se traduz num padrão reconhecível: o advogado usa IA para reformatar um e-mail (nível 2), mas não percebe que poderia usar a mesma ferramenta para analisar cláusulas de não-concorrência em 30 contratos simultaneamente (nível 3-4). A diferença não é de complexidade técnica — é de diagnóstico de onde há valor a extrair.

O que isso significa para profissionais do Direito

A Recomendação OAB 001/2024 e a Resolução CNJ 615/2025 estabeleceram um marco regulatório inicial para o uso de IA na advocacia no Brasil. Ambas reconhecem o uso da IA como legítimo e sinalizam responsabilidade do profissional pelo output gerado — o que torna o nível de proficiência uma questão não apenas de produtividade, mas de responsabilidade técnica.

Um profissional no nível 1 ou 2 que usa IA para elaborar peças processuais sem revisão crítica está exposto a riscos que um profissional no nível 3 ou 4 naturalmente mitiga — porque saber avaliar o output faz parte da competência adquirida ao subir na escala.

A diferença prática é concreta. Um profissional no nível 1 pede à IA uma minuta de cláusula de não-concorrência, recebe um texto tecnicamente plausível e o incorpora ao contrato com ajustes superficiais de formatação. Ele não tem parâmetros para avaliar se a cláusula é adequada ao setor, à jurisdição, ao porte da empresa ou à função do colaborador — porque sua relação com a ferramenta ainda é a de quem faz uma pergunta e aceita a resposta. Um profissional no nível 4 faz a mesma tarefa com contexto detalhado, parâmetros explícitos, iteração sobre o rascunho e revisão orientada por critérios técnicos que ele mesmo definiu. O output final é reconhecidamente seu — não uma resposta da IA que ele assinou.

Onde você está?

O framework acima não é definitivo — é um mapa de trabalho, ancorado em pesquisa empírica recente. Cada nível tem marcadores reconhecíveis. O salto do nível 2 para o 3 é o mais subestimado: não exige mais tempo de uso, exige mudança de postura em relação ao output. Revisar com autoridade é diferente de revisar com desconfiança.

E o salto do 3 para o 4 — que é onde está o diferencial real de produtividade — depende de construir fluência: saber onde a ferramenta é confiável, onde não é, e como instruí-la de forma que o resultado carregue sua voz, não a média estatística do modelo.

A questão não é se usar IA. É em qual nível você opera quando usa.

Fontes

  1. Section AI. The AI Proficiency Report. sectionai.com/ai/the-ai-proficiency-report
  2. Larridin. AI Proficiency: The Complete Enterprise Guide 2026. larridin.com
  3. Larridin. What Is AI Proficiency? larridin.com
  4. OAB. Recomendação 001/2024.
  5. CNJ. Resolução 615/2025.

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